O mercado da estética no Brasil vive um momento paradoxal.
De um lado, os números impressionam: crescimento estimado entre 9% e 12,5% ao ano, expansão da indústria, novos equipamentos, lançamentos constantes e um volume crescente de profissionais ingressando no setor.
Do outro, um movimento silencioso e pouco discutido: clínicas de estética fechando, profissionais frustrados e negócios que não conseguem se sustentar no médio prazo.
A pergunta que precisa ser feita, e que raramente aparece nas análises superficiais, é direta:
se o mercado cresce, por que tantas clínicas estão quebrando?
Mais de 2 milhões de profissionais ampliando a competitividade do setor
Hoje, o Brasil soma mais de 2 milhões de profissionais da saúde, distribuídos entre diferentes especialidades e áreas de atuação. Evidentemente, nem todos atuam diretamente na estética.
No entanto, uma parcela expressiva desses profissionais possui formação, habilitação ou possibilidade legal de migrar, complementar ou incorporar procedimentos estéticos à sua prática profissional, o que amplia de forma contínua a competitividade do setor. Entre eles estão médicos, dentistas, enfermeiros, fisioterapeutas, farmacêuticos, biomédicos e esteticistas.
Além disso, mais de 50 mil novos profissionais se formam todos os anos nessas áreas, fortalecendo um cenário de entrada constante de novos players no ecossistema da estética.
Esse crescimento da força profissional, por si só, não é negativo.
O desafio surge quando essa entrada acontece sem preparo empresarial, sem visão estratégica e sem domínio de gestão, marketing e vendas, elementos hoje indispensáveis para a sustentabilidade de uma clínica.
O crescimento favorece a indústria, não necessariamente as clínicas
Outro ponto pouco discutido é a assimetria do crescimento.
A indústria da estética cresce porque opera sob uma lógica de volume:
- venda de equipamentos
- insumos
- cosméticos
- tecnologias
Já a clínica de estética cresce (ou não) sob outra lógica: margem, recorrência, posicionamento e sustentabilidade financeira.
Quando essas duas lógicas são confundidas, o resultado é previsível:
- clínicas altamente equipadas, mas financeiramente frágeis
- profissionais endividados
- dependência de promoções
- guerra de preços
- exaustão operacional
O mercado cresce, mas quem mais se beneficia são os fornecedores, não necessariamente os donos de clínicas.
Técnica deixou de ser diferencial
Durante muitos anos, a excelência técnica foi suficiente para sustentar um negócio na estética.
Esse cenário mudou.
Hoje, a técnica é pré-requisito, não diferencial.
O que separa clínicas que sobrevivem daquelas que fecham é:
- gestão baseada em indicadores
- estratégia comercial
- posicionamento de mercado
- experiência do paciente
- leitura clara de custos, margem e lucro
Profissionais extremamente capacitados tecnicamente continuam abrindo clínicas sem qualquer preparo para gerir um negócio, e pagam um preço alto por isso.
A estética não está em crise. Está seletiva.
É comum ouvir que o mercado está “difícil”.
Os dados mostram outra realidade.
O mercado da estética não está em crise.
Ele está mais seletivo.
Ele elimina:
- improviso
- amadorismo
- cópia sem estratégia
- negócios que dependem apenas de movimento e não de margem
E recompensa profissionais que entendem que estética deixou de ser apenas profissão e passou a ser empresa.
O fechamento silencioso das clínicas
Pouco se fala sobre quantas clínicas fecham todos os anos.
Esse número não costuma aparecer em campanhas, eventos ou discursos motivacionais.
Mas ele existe.
E quase sempre está associado aos mesmos fatores:
- ausência de planejamento
- desconhecimento financeiro
- marketing sem estratégia
- vendas baseadas apenas em desconto
- falta de visão de longo prazo
Não é o mercado que fecha clínicas.
É a falta de preparo para operar dentro dele.
Em qual lado o profissional do futuro da estética quer estar?
Diante desse cenário, a pergunta deixa de ser “o mercado cresce?”
E passa a ser:
em qual lado desse mercado o profissional quer estar?
- No grupo que apenas executa técnica, copia protocolos e reage ao mercado?
- Ou no grupo que constrói estratégia, posicionamento e crescimento sustentável?
O futuro da estética não será dominado pelos mais técnicos, nem pelos mais baratos.
Será ocupado por quem entende que crescer exige método, gestão e visão empresarial.
Maturidade
O crescimento do mercado da estética é real.
A oportunidade existe.
Mas ela não é automática, nem democrática.
Ela favorece quem:
- entende o jogo
- se prepara
- deixa de improvisar
- assume o papel de gestor, não apenas de executor
O debate que precisa ganhar espaço no setor não é apenas sobre novas técnicas ou tecnologias, mas sobre maturidade empresarial.
Porque, no fim, a estética continuará crescendo.
A pergunta é: quem vai crescer junto com ela?
