Com mais de 100 mil produtos cadastrados, aplicativo traduz ingredientes de cosméticos para o consumidor e abre uma nova possibilidade de uso: apoiar profissionais da saúde estética na consulta e compreensão de formulações
A evolução da estética trouxe para as clínicas tecnologias cada vez mais sofisticadas, novos procedimentos e uma oferta crescente de dermocosméticos. Mas, diante de tantos ingredientes, ativos e diferentes combinações disponíveis no mercado, compreender exatamente o que existe dentro de cada produto pode representar um desafio até mesmo para quem trabalha diariamente com estética.
É nesse cenário que a Be Clean começa a enxergar uma aplicação que vai além do consumidor final.
Criado inicialmente para ampliar a transparência na indústria da beleza, o aplicativo permite escanear produtos, identificar os ingredientes presentes na formulação e acessar informações sobre seus componentes. Segundo a empresa, a plataforma já reúne mais de 100 mil produtos cadastrados.
Em conversa com o Estética & Mercado, a fundadora Marina Miranda destacou também o potencial da tecnologia como ferramenta de apoio para profissionais da saúde estética que, apesar de atuarem diretamente com tratamentos e cuidados com a pele, possuem diferentes níveis de formação e aprofundamento em cosmetologia.
A proposta não é substituir o conhecimento técnico ou a avaliação profissional, mas facilitar o acesso à informação no momento em que é necessário compreender uma formulação.
Mais de 12 mil ingredientes: entender um rótulo não é tão simples
A complexidade desse universo pode ser dimensionada pelos próprios dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Segundo a Agência, existem mais de 12 mil ingredientes utilizados em produtos cosméticos, muitos deles com diferentes denominações químicas e nomes comerciais. Para padronizar essa identificação internacionalmente, é utilizada a nomenclatura INCI, International Nomenclature of Cosmetic Ingredients.
A padronização facilita a identificação, mas isso não significa necessariamente que interpretar uma formulação seja simples.
Nomes técnicos, diferentes funções cosméticas, associações de ingredientes e a constante chegada de novos produtos ao mercado tornam a atualização uma necessidade permanente para quem trabalha com cuidados cosméticos.
É justamente nesse ponto que ferramentas capazes de organizar e traduzir essas informações podem encontrar espaço não apenas na decisão de compra do consumidor, mas também como recurso complementar dentro da rotina profissional.
Formação em estética não é igual para todos
Também é necessário considerar que os profissionais que atuam no mercado da estética chegam às clínicas por diferentes trajetórias acadêmicas e profissionais.
No caso específico da profissão de Esteticista e Cosmetólogo, a Lei nº 13.643/2018 estabelece diferenças entre as competências do Técnico em Estética e as do profissional de nível superior em Estética e Cosmética.
A legislação estabelece, por exemplo, que o Técnico em Estética pode executar procedimentos utilizando produtos cosméticos, enquanto atribui ao Esteticista e Cosmetólogo de nível superior competências adicionais, entre elas consultoria e assessoria sobre cosméticos e elaboração de trabalhos e pesquisas relativos à Estética e à Cosmetologia.
O próprio Catálogo Nacional de Cursos Técnicos do Ministério da Educação ajuda a dimensionar essa diferença. O curso Técnico em Estética possui carga horária mínima de 1.200 horas e prevê a Especialização Técnica em Cosmetologia como possibilidade de formação continuada, indicando que o aprofundamento na área pode constituir uma etapa adicional da formação profissional.
Isso não significa que técnicos ou profissionais oriundos de outras formações necessariamente desconheçam cosmetologia. Da mesma maneira, possuir formação superior não garante domínio de todas as formulações existentes.
O que os dados permitem afirmar é que o mercado reúne profissionais com diferentes formações e níveis de aprofundamento em cosmetologia, diante de um universo com milhares de ingredientes e uma oferta de produtos em constante transformação.
Não existem, atualmente, dados nacionais robustos que permitam determinar qual percentual dos profissionais brasileiros da estética possui conhecimento aprofundado em cosmetologia. Por isso, mais relevante do que tentar dimensionar essa lacuna é reconhecer a necessidade de atualização permanente e de acesso a informações confiáveis sobre ingredientes e formulações.
Um mercado de R$ 200 bilhões
A discussão ganha relevância quando observada diante da dimensão da indústria.
Dados divulgados pela Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC) apontam que o setor brasileiro de Beleza e Cuidados Pessoais movimentou aproximadamente R$ 200 bilhões em 2025, colocando o Brasil como o terceiro maior mercado consumidor mundial. A entidade estima ainda cerca de 7 milhões de oportunidades de trabalho ao longo da cadeia produtiva.
Quanto maior a oferta de produtos e o ritmo de inovação, maior tende a ser também o volume de informação que precisa ser acompanhado tanto pelos consumidores quanto pelos profissionais que atuam no setor.
Da experiência pessoal para mais de 100 mil produtos
A origem da Be Clean está relacionada a uma experiência pessoal de Marina Miranda.
Segundo material encaminhado ao Estética & Mercado, em 2023 a empreendedora começou a sentir um zumbido persistente no ouvido. Após realizar exames sem encontrar uma causa clara, passou a pesquisar relatos relacionados ao uso de produtos capilares e, a partir dessa experiência, começou a investigar com maior profundidade a composição dos cosméticos que utilizava.
Dessa inquietação surgiu a proposta de tornar informações técnicas sobre cosméticos mais compreensíveis.
No aplicativo, o usuário pode consultar os ingredientes encontrados em determinado produto e acessar explicações sobre os componentes. A plataforma também atribui notas de 0 a 10 aos produtos analisados. Segundo a Be Clean, sua base utiliza informações da Anvisa e passa por revisão de especialistas.
Para o consumidor, essas informações podem ampliar a compreensão sobre os produtos que fazem parte de sua rotina e oferecer mais elementos para suas decisões de compra.
Para o uso profissional, entretanto, a nota isoladamente talvez seja menos relevante do que a possibilidade de compreender rapidamente quais ingredientes fazem parte de determinada formulação e qual é a função deles.
Tecnologia como apoio, e não como substituta da formação
Esse talvez seja o ponto mais importante dessa discussão.
Um aplicativo não substitui cosmetologia, formação acadêmica, literatura científica nem a avaliação individualizada de cada cliente ou paciente. Também não deve transformar uma nota atribuída a um cosmético em uma recomendação automática.
Tipo e condição da pele, concentração dos ativos, veículo cosmético, associações, frequência de utilização, histórico individual e objetivo do tratamento continuam exigindo conhecimento profissional.
A tecnologia pode ocupar outro espaço: reduzir a barreira de acesso à informação.
Antes de recomendar ou utilizar determinado produto, o profissional pode recorrer à ferramenta para compreender melhor sua composição, identificar ingredientes que desconhece e buscar informações adicionais antes de tomar uma decisão.
Essa possibilidade é especialmente relevante em um momento no qual a própria Anvisa vem ampliando a discussão sobre cosmetovigilância. Em junho de 2026, o primeiro Encontro Nacional de Cosmetovigilância para Estudantes promovido pela Agência registrou 2.189 inscrições de estudantes e profissionais de áreas como Farmácia, Biomedicina, Estética e Cosmetologia, Engenharia Química e Medicina.
A tecnologia, portanto, pode funcionar como uma porta de entrada para uma decisão mais informada, não como ponto final dela.
Uma ferramenta para consumidores e profissionais
A Be Clean nasceu olhando principalmente para o consumidor. A própria empresa se define como uma plataforma voltada a tornar o consumo de cosméticos mais transparente, acessível e consciente.
A possibilidade de utilização por profissionais, no entanto, amplia as aplicações da ferramenta sem alterar esse propósito original.
Dentro de uma clínica, recursos desse tipo podem auxiliar na consulta de produtos utilizados pelos clientes ou pacientes em casa, na análise inicial de cosméticos que chegam ao mercado e até na educação sobre os produtos que fazem parte de uma rotina de cuidados.
Para profissionais que já possuem conhecimento avançado em cosmetologia, uma plataforma desse tipo pode representar principalmente agilidade de consulta. Para aqueles cuja formação teve menor aprofundamento na área, pode funcionar como instrumento complementar de acesso à informação, sempre respeitando os limites de formação e atuação de cada categoria profissional.
Em um mercado com uma oferta cada vez maior de produtos, ingredientes e formulações, tornar a informação mais acessível pode contribuir para escolhas mais conscientes.
É nesse espaço que a Be Clean busca atuar: ajudando o consumidor a compreender melhor os cosméticos que utiliza e, ao mesmo tempo, oferecendo aos profissionais da estética uma ferramenta complementar de consulta sobre produtos e formulações.
Para públicos diferentes, o propósito é o mesmo: mais informação para decisões mais conscientes sobre os cosméticos que fazem parte da rotina de cuidados.
