Especialista destaca que associação estratégica de terapias exige base científica e formação consistente
Durante sua participação no Congresso Brasileiro de Cirurgia Dermatológica, a dermatologista Fernanda Sakamoto, speaker da Rennova, apresentou a palestra “Impacto das tecnologias na otimização de resultados clínicos”.
Após a apresentação, em entrevista ao Estética e Mercado, a especialista comentou uma percepção recorrente no setor, identificada a partir do contato direto com profissionais da área e da observação de resultados clínicos: a dificuldade em estruturar associações terapêuticas de forma estratégica, especialmente quando envolve o uso de tecnologias avançadas.
Apesar da evolução dos recursos e da ampliação da oferta de tratamentos, ainda é comum observar protocolos isolados, com resultados limitados, principalmente quando não há um raciocínio clínico estruturado para integrar diferentes abordagens.
Segundo Sakamoto, o desafio não está necessariamente no acesso à tecnologia, mas na forma como ela é aplicada na prática clínica.
Com atuação voltada à dermatologia, fotomedicina e tecnologias aplicadas à estética, a Dra. Fernanda Sakamoto é formada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), possui residência em dermatologia e pós-doutorado no Wellman Center for Photomedicine, ligado à Harvard Medical School.
A especialista atua nas áreas de laser, terapias combinadas e tecnologias energizadas aplicadas ao rejuvenescimento e à qualidade da pele, sendo reconhecida por sua atuação científica e educacional no setor.
Falta de treinamento ainda é um gargalo
Na avaliação da especialista, existe uma lacuna relevante na formação dos profissionais, especialmente no que diz respeito ao uso de tecnologias.
“A maior parte das pessoas não tem acesso ao treinamento adequado de aparelhos, nem mesmo aos princípios básicos de segurança.”
O alto custo dos equipamentos e a limitação de acesso durante a formação contribuem para esse cenário, reduzindo o domínio técnico necessário para utilização segura e eficaz.
O efeito do uso isolado de preenchedores
A especialista também contextualiza um movimento importante do mercado nos últimos anos: a consolidação dos preenchedores como base dos tratamentos faciais.
No entanto, essa centralização trouxe distorções nos resultados.
“Quando utilizamos apenas toxina botulínica e preenchedores, o resultado tende a ser superficial e muitas vezes artificial.”
Segundo ela, aspectos como textura da pele, qualidade tecidual, manchas e alterações vasculares exigem abordagens complementares, muitas vezes associadas a tecnologias, para resultados mais naturais e completos.
Mais cursos, menos base
Mesmo com a expansão da oferta educacional na área estética, o problema não está na falta de busca por conhecimento.
“O médico brasileiro busca muito. Está presente nos principais congressos do mundo.”
O ponto crítico, segundo Sakamoto, está na qualidade dessa formação.
“Existem muitos cursos que não ensinam o mínimo fundamental.”
Esse excesso de informação, sem aprofundamento adequado, contribui para um cenário de conhecimento superficial, que impacta diretamente na tomada de decisão clínica.
Quando o conhecimento é substituído pelo discurso comercial
Outro ponto levantado pela especialista é a influência de argumentos comerciais na escolha de tecnologias.
Sem domínio técnico suficiente, muitos profissionais passam a tomar decisões baseadas em promessas de mercado.
“Quando a pessoa não tem conhecimento, ela não consegue avaliar e pode acabar acreditando no vendedor.”
Indicação clínica: o ponto central do resultado
Para a dermatologista, o sucesso de qualquer tratamento começa antes da escolha da tecnologia.
“Para qualquer tratamento estético, a indicação é a coisa mais importante.”
Ela reforça que muitos erros acontecem na etapa inicial, quando não há clareza sobre a real necessidade do paciente.
“Entender o que o paciente quer tratar é a principal razão para o sucesso dos resultados.”
Entre a velocidade da informação e a superficialidade
O cenário atual também é marcado pelo excesso de informação, que pode gerar uma falsa sensação de domínio.
Com acesso facilitado a conteúdos rápidos, muitos profissionais acreditam estar preparados, mas sem base suficiente para sustentar decisões mais complexas e individualizadas.
O caminho: voltar aos fundamentos
Como direcionamento, Sakamoto é objetiva: o profissional que deseja evoluir precisa fortalecer sua base.
“É preciso buscar conhecimento com fundamento científico e não apenas cursos que prometem muito e entregam pouco.”
Uma mudança silenciosa na estética
A análise da especialista reflete um movimento mais amplo no setor: a transição de um modelo baseado em procedimentos isolados para uma abordagem orientada por diagnóstico, estratégia e associação terapêutica.
Nesse contexto, a tecnologia deixa de ser diferencial e passa a ser ferramenta, dependendo, sobretudo, da capacidade clínica de quem a utiliza.

